A transferência
de embriões é uma etapa tão importante,
que merece uma página. A qualidade do trabalho, a maturidade
e experiência profissional podem ser avaliadas nesse
momento.
É claro que todos visamos o êxito (bebê),
tanto os pacientes quanto as clínicas, mas os pacientes,
por inexperiência, como alguém que com muita
fome faz um prato maior do que pode comer, não avaliam
o risco de trasnsfrirem muitos embriões para o útero.
O profissional experiente e maduro, deve avaliar as singularidades
de cada caso e achar o ponto de equilíbrio entre uma
razoável probabilidade de êxito e um risco mínimo
de gravidez múltipla.
No link ESTIMULAÇÃO OVARIANA falamos sobre a
Síndrome de Hiperestimulação Ovariana,
que é o principal risco nos tratamentos com reprodução
assistida.
Outro risco importante é a gravidez múltipla,
frequentemente observada em pacientes que se submeteram a
essas técnicas. Em todos os tratamentos que incluem
estimulação dos ovários, para que sejam
produzidos vários óvulos ao invés de
um só como acontece nos ciclos naturais, existe o risco
de ter mais de um bebê. O problema é que, seja
qual for o tratamento, não é possível
garantir gravidez e quando se aumenta a chance de ocorrer
gravidez, transferindo para o útero mais que um embrião,
também se aumenta o risco de ter gêmeos ou múltiplos
(trigêmeos, quadrigêmeos, etc.), também
chamados de gravidez múltipla de alta ordem.
Na inseminação artificial ou intra-uterina com
estimulação ovariana ou mesmo na simples indução
da ovulação com coito programado, embora a chance
de ter bebê seja menor que nas técnicas mais
sofisticadas e invasivas como a fertilização
in vitro convencional (FIV) ou a injeção intracitoplasmática
de espermatozóide (ICSI), a chance de ter múltiplos
é maior que na fiv ou na icsi, pois diferente dessas
onde podemos decidir quantos embriões serão
transferidos para o útero, já que os óvulos
foram fertilizados fora do corpo, os óvulos já
estão todos lá dentro.
O que podemos fazer, nos casos onde muitos folículos
(estruturas císticas que contêm um óvulo
cada) cresceram, é sugerir a interrupção
do tratamento ou transformá-lo numa fiv ou icsi, para
evitar a gravidez múltipla.
A maioria dos pacientes, após terem iniciado o tratamento,
tendo gasto com exames e medicamentos, não aceita a
proposta de cancelar o ciclo. Já ouvi mesmo pacientes
dizerem: "Doutor, eu prefiro correr o risco de ter 10
filhos que cancelar o tratamento". É uma situação
difícil.
Aqui na clínica tivemos alguns casos de quíntuplos
e mesmo de uma paciente que ficou grávida de 9 bebês.
Na maioria desses casos, tiveram partos prematuros e apesar
dos recursos de UTI neonatais, todos ou quase todos os bebês
morreram. Em alguns casos os bebês não morreram,
mas ficaram com sequelas da prematuridade ou de infecção
hospitalar. É uma catástrofe para os pacientes
e grande tristeza para nós. Essa é a principal
razão de praticamente não realizarmos mais estimulação
ovariana com coito programado ou associada à inseminação
artificial ou intra-uterinatais aqui na clínica.
O maior desafio para as clínicas de reprodução
assistida hoje, é aumentar as taxas de êxito
e simultaneamente reduzir a incidência de gravidez múltipla.
Para tanto, esforços vêm sendo direcionados a
métodos que permitam distinguir entre todos os embriões
produzidos, aqueles que têm mais chances de gerar bebês.
Inseminação dos óvulos, cultivo
e classificação de embriões:
O sêmen é coletado na clínica ou trazido
de casa (seguindo cuidados explicados no link CONSULTA,
EXAMES E CUSTOS), antes da coleta dos óvulos, para
que se possa iniciar a seleção dos espermatozóides,
que leva algumas horas.
Após a coleta,
realizada na maioria dos casos aqui na clínica, sob
sedação e analgesia central leves ou opcionalmente
sob anestesia geral, num centro cirúrgico hospitalar
(raros casos), os óvulos são separados do líquido
extraído dos folículos e transferidos para meios
de cultura.
Após a seleção
dos espermatozóides, os óvulos são
inseminados (mantidos em contato com espermatozóides
selecionados) na FIV convencional ou manipulados (injetados
com um espermatozóide vivo cada) na injeção
intracitoplasmática de espermatozóide (ICSI).
Raramente pode acontecer de
nenhum óvulo ser encontrado ou quando encontrados,
mas não estando maduros, não fertilizarem
ou não poderem ser manipulados. Uma vez preparados
para a ICSI, os óvulos não fertilizam numa
FIV convencional. Os óvulos imaturos que não
foram preparados para a ICSI, podem ser inseminados numa
FIV convencional. Muitos amadurecem algumas horas depois
e são fertilizados normalmente. Da mesma forma, alguns
óvulos imaturos preparados para a ICSI, podem amadurecer
em algumas horas e serem manipulados posteriormente.
Dos óvulos maduros,
tanto na ICSI como na FIV, espera-se uma boa taxa de fertilização
(entre 60 e 80%), mas com ótimos espermatozóides,
tanto na FIV como na ICSI, pode ocorrer ausência total
de fertilização, em aproximadamente 10% dos
casos de FIV e 2% de ICSI. Não havendo fertilização,
não teremos embriões para transferir.
Taxas de fertilização
abaixo do esperado (entre 60 e 80% dos óvulos maduros)
são bastante comuns e acontecem em pelo menos 30%
dos tratamentos com FIV convencional e 10% dos tratamentos
com ICSI.
Prever a ausência total
de fertilização (nenhum óvulo fertilizado)
ou baixa taxa de fertilização (menos que 60
a 80% dos óvulos maduros fertilizados) é difícil
e quando acontece, as chances de êxito no tratamento
são pequenas ou nulas. Nesses caso é mesmo
difícil saber se a causa é do óvulo
ou do espermatozóide. O diagnóstico só
é possível através de testes cruzados
de fertilização, que não são
eticamente aceitos (óvulos da paciente x espermatozóides
de doador e espermatozóides do paciente x óvulos
de doadora).
Um dia após a coleta
dos óvulos (1º dia, pois a coleta seria no dia
0), já é possível estimar o número
de óvulos fertilizados, pela visualização
dos pró-núcleos (pequenas áreas claras
arredondadas dentro dos óvulos). Nesse estágio
são também chamados de zigotos.
Cada zigoto deve conter 2
pró-núcleos. Zigotos com mais de 2 pró-núcleos
ou com pelo menos um dos pró-núcleos fragmentado,
deverão ser descartados, pois apresentam mutações
genéticas (anomalias cromossômicas). Zigotos
com apenas 1 pró-núcleo devem ser analisados
com cuidado, pois podem ter mutações genéticas
ou apenas o aparecimento dos pró-núcleos não
sincronizado.
Dentro dos pró-núcleos
podem ser observados os nucléolos. De acordo com
a uniformidade e distância dos pró-núcleos
e o número e disposição de nucléolos
em cada pró-núcleo, os zigotos podem ser classificados
em zigoto A (ZA), zigoto B (ZB), zigoto C (ZC) ou zigoto
D (ZD).
No 2º dia, mais de 90%
dos óvulos fertilizados já começaram
a se dividir (clivar) e têm entre 2 e 4 células.
Embriões que clivam mais rápido, cujas células
têm mais ou menos o mesmo tamanho e menos ou ausência
de fragmentos (células arrebentadas), têm mais
chances de gerar bebês. Os embriões são
classificados pelo número de células, pela
uniformidade delas e pelo percentual do volume composto
por fragmentos em:
Grau A: Todas
as células do mesmo tamanho e ausência de fragmentação.
É o melhor embrião, mas corresponde a menos
de 5% de todos os embriões encontrados. Sua probabilidade
de gerar bebê é o dobro da esperada para o
embrião de grau B. Aproximadamente 2/3 deles resistem
ao congelamento ou se transformam em blastocistos, se mantidos
em cultura em meios seqüenciais por até sete
dias.
Grau B: Células
do mesmo tamanho, com no máximo 20% de seu volume
constituído por fragmentos ou ainda células
de tamanhos diferentes, mas sem fragmentação.
Considerado bom, representa de 30 a 50% dos embriões
encontrados. Tem o dobro da probabilidade do embrião
grau C. Aproximadamente 1/3 a 1/2 deles resistem ao congelamento
ou se transformam em blastocistos, se mantidos em cultura.
Grau C: Células
do mesmo tamanho ou não, com 20 a 50% de seu volume
constituído por fragmentos. Considerado regular ou
pobre, representa de 30 a 50% dos embriões obtidos.
Tem o dobro da probabilidade do embrião grau D. Raramente
resistem ao congelamento e se mantidos em cultura, menos
de 10% se transformam em blastocistos.
Grau D: Células
do mesmo tamanho ou não, com mais de 50% do volume
constituído por fragmentos. É muito pobre
ou ruim. Representa de 10 a 30% dos embriões encontrados,
com incidência maior em pacientes com ovários
policísticos ou idade avançada. Só
são transferidos para o útero se não
existirem outros melhores. Tivemos raríssimos casos
de gravidez com transferência de apenas embriões
grau D. Praticamente não resistem ao congelamento
e não se transformam em blastocistos, se mantidos
em cultura.
Quanto ao número
de células: Se um embrião é
A8, significa que é grau A e tem 8 células.
O embrião que cliva mais rápido tem mais chance
de gerar bebê. Os melhores já começam
a clivar ao final do 1º dia, tendo pelo menos 4 células
no 2º dia e 8 células no 3º dia. Sofrem
compactação no 4º dia e se expandem tornando-se
blastocistos no 5º dia. Embriões que se tornam
blastocistos no 6º dia têm a metade da probabilidade
daqueles que o fazem no 5º. Um embrião que atingiu
o número ideal de células esperado para aquela
data, terá o máximo de probabilidades, mas
apenas a metade se tem uma célula a menos, um quarto
se tem duas células a menos e assim por diante.
Exemplos: No 3º dia, um embrião
A8 (8 células é o ideal para o 3º dia)
terá a mesma probabilidade de um A10, mas um embrião
A7, terá apenas a metade. Um embrião B8 terá
a metade da probabilidade de um A8 e a mesma de um A7. Um
embrião C8 terá a mesma probabilidade de um
A6 ou de um B7, seja um quarto da probabilidade de um A8.
No que tange à idade, um embrião A8 de uma
mulher com 40 anos tem 25% da probabilidade de um A8 de
outra com 25 anos, pois aproximadamente 5% dos óvulos
a cada ano a partir dos 25 anos sofrem alterações
genéticas.
Nos últimos anos, grandes avanços aconteceram
na composição dos meios de cultura, que vão
fornecer aos embriões, os nutrientes necessários
para um perfeito desenvolvimento. Paralelamente, em função
desse avanço que aumentou as taxas de implantação
(nº de bebês nascido/ nº de embriões
transferidos), verificou-se no mundo todo, uma tendência
para se transferir um número cada vez menos embriões
em cada tratamento.
Outros avanços que hoje vêm permitindo reduzir
o número de embriões na transferência
são:
- Cultura para blastocisto (explicada em detalhes no link
CULTURA PARA BLASTOCISTOS). No máximo 40% dos embriões
atingem esse estágio, quando mantidos no laboratório
por pelo menos cinco dias, permitindo uma significativa
redução no número de embriões
viáveis (os que não chegam a blastocisto já
podem ser descartados e os que chegam já deram prova
de sua superioridade). Embora aumente um pouco o trabalho
no laboratório, praticamente não aumenta o
custo do procedimento.
- Diagnóstico genético pré-implantacional
(PGD), explicado em detalhes no link PGD. A partir dos vinte
e cinco anos, a cada ano, em torno de cinco por cento dos
óvulos sofrem mutações genéticas,
embora com mutações genéticas, muitos
óvulos possam produzir embriões bonitos ao
exame microscópico. Examinando uma a duas células,
obtidas por biópsia dos embriões a serem transferidos,
geralmente no terceiro dia após a coleta dos óvulos,
vamos encontrar mutações que serão
mais frequentes à medida em que a idade avança.
Descartando os embriões que apresentam mutações,
também teremos uma redução importante
no número de embriões a serem transferidos.
Embora muito comum na Europa, nas Américas, onde
o paciente paga o tratamento, o PGD não pode ser
utilizado de rotina, pois o custo é muito elevado.
Obs: A maioria das mutações genéticas
são incompatíveis com a vida e a maior parte
dos embriões com mutações, nem mesmo
atingem o estágio de blastocisto. Noventa e oito
por cento dos bebês que nasceriam com problemas, terminam
em aborto espontâneo. Estudos de PGD mostraram que
a incidência de mutações, em embriões
que chegaram a blastocisto, é em torno de cinco vezes
menor que em embriões no terceiro dia.
É possível que no futuro todas as transferências
sejam realizadas no estágio de blastocisto (cinco
a sete dias após a coleta dos óvulos), mas
hoje, apesar de todo o avanço, acredita-se que nenhum
laboratório é melhor do que o útero.
Alguns embriões que não se desenvolveram no
laboratório até o estágio de balstocisto,
talvez pudessem ter gerado bebês, se transferidos
precocemente para o útero (ambiente que a natureza
vem aprimorando há milhões de anos).
Na Europa, como em muitos países o governo custeia
os tratamentos de reprodução assistida, para
casais que querem mas não conseguem ter filhos, o
PGD é realizado quase que de rotina em todos os tratamentos.
Na América Latina e mesmo na América do Norte,
como os tratamentos são custeados pelos próprios
casais, o PGD é realizado opcionalmente, devendo
estar previamente combinado. Em alguns países, esse
custeio está condicionado a transferência de
apenas um embrião por tratamento, para reduzir a
praticamente zero, os riscos de gravidez múltipla.
Com isso, na maioria dos paises europeus, hoje só
se transfere um embrião, apesar das taxas de êxito
serem inferiores às observadas nas Américas.
Nas Américas, as clínicas mais ousadas (mais
confiantes na qualidade de seus laboratórios), costumam
transferir apenas um embrião, para pacientes de até
29 anos, dois embriões para pacientes de 30 a 34
anos, três embriões para pacientes de 35 a
39 anos e quatro embriões, para pacientes acima de
39 anos (quarenta anos ou mais).
Aqui na clínica, tentamos transferir cada vez menos
embriões e a decisão de quantos e quais serão
transferidos, é feita antes da transferência,
baseada em cálculos matemáticos e em comum
acordo com os pacientes. Conseguimos reduzir nossa taxa
de gêmeos (dois bebês) para menos de 20% e a
de múltiplos de alta ordem (trigêmeos ou mais)
para menos de 1% das gestações. Nosso último
caso de trigêmeos foi em 2004.
Congelamento de embriões:
A probabilidade de gravidez e o risco
de gravidez múltipla aumentam à medida em
que aumentamos o número de embriões transferidos.
A gravidez múltipla oferece riscos para a mãe
e principalmente para os bebês. Para minimizar tais
riscos, quando muitos embriões são produzidos,
limitamos o número de embriões a serem transferidos,
deixando-os em cultura para blastocistos. Os que não
atingem esse estágio são descartados. Quando
muitos blastocistos se formam, uma parte pode ser congelada
para uso futuro. Alguns embriões não resistem
ao congelamento e os que resistem, têm menos chances
de gerar bebês que antes do congelamento. O congelamento
e armazenamento de embriões terão um custo
anual, vencendo a cada ano na data da coleta dos óvulos.
O não pagamento dessa taxa será considerado
como perda do interesse pelos embriões congelados,
deixando a clínica à vontade para doá-los,
para outros pacientes ou para pesquisas, por exemplo.
Em consequência da cuidadosa pesquisa da reserva ovariana,
do empenho para descobrir a menor dose de hormônios
para cada paciente, capaz de produzir apenas o número
suficiente de óvulos e a rotina de fazer cultura
para blastocistos, em quase todos os casos onde foram produzidos
mais embriões de boa qualidade que o necessário,
raramente temos embriões excedentes para serem congelados.
No passado, mais que 50% de nossos tratamentos tinham embriões
excedentes, que eram congelados ou mesmo transferidos no
próprio tratamento, aumentando a incidência
de gravidez múltipla.
Hoje temos embriões excedentes para congelamento,
em menos que 2% dos tratamentos, sendo esses raros casos,
quase todos em mulheres de até 34 anos.