A técnica de injeção
intracitoplasmática de espermatozóide (icsi),
abreviatura do inglês intracytoplasmic sperm injection,
já vinha sendo tentada há alguns anos, para
casos de homens com espermograma (exame do sêmen)
muito alterado, mas as taxas de fertilização
e de êxito (bebê) eram bem pequenas. Em 1992/1993,
Gianpiero D. Palermo, um italiano que trabalhava na Bélgica,
divulgou resultados animadores, após ter injetado
acidentalmente espermatozóides com cauda e tudo,
dentro do citoplasma dos óvulos, ao invés
de apenas colocá-los abaixo da zona pelúcida,
como se fazia na época. Daí em diante a técnica
se difundiu, sendo hoje a mais utilizada em todo o mundo,
por ser a gue contorna o maior número de possíveis
obstáculos, produzindo excelentes resultados em praticamente
todo tipo de problema e principalmente nos casos de fator
masculino, que até 1993 tinham prognóstico
bem ruim.
Hoje é utilizada para quase tudo, mas está
indicada principalmente para casos de fator masculino, quando
o espermograma está alterado, homens vasectomizados
ou azoospérmicos (sem espermatozóides na ejaculação),
com espermatozóides obtidos por punção
do epidídimo ou biópsia testicular respectivamente.
Alguns homens optam pela cirurgia de reversão da
vasectomia e em muitos casos os espermatozóides voltam
a ser encontrados na ejaculação. Em conseqüência
da prolongada obstrução dos canais ou ductos
deferentes, mesmo quando os espermatozóides aparecem
na ejaculação, são poucos os homens
que conseguem ter filhos por vias naturais. Após
a vasectomia, o organismo passa a produzir anticorpos antiespermatozóides,
que atacam os espermatozóides durante sua fabricação,
perfurando suas membranas, comprometendo sua motilidade,
sobrevida e capacidade de fertilizar óvulos.
A icsi também está indicada para homens que
sofreram lesões medulares (paraplegia e tetraplegia),
onde os espermatozóides deverão ser aspirados
dos epidídimos ou obtidos através de biópsia
testicular.
Quando presentes no aspirado do epidídimo ou na biópsia
testicular, os espermatozóides são geralmente
raros, mas podem ser utilizados para fertilizar os óvulos,
se for possível encontrar pelo menos um vivo para
cada óvulo. Quando não são encontrados
espermatozóides, mas pelo menos algumas espermátides
maduras ou alongadas (células precursoras dos espermatozóides),
também podem ser utilizadas, mas as taxas de êxito
(bebê) são bem menores que quando são
utilizados espermatozóides.
Se a mulher já tem mais de 34 anos, não há
provas da fertilidade do homem (não tem filhos e
nunca engravidou uma mulher), o espermograma é ruim
ou já aconteceu falha de fertilização
em tratamentos anteriores, para evitar o risco de não
haver fertilização (falha de fertilização
que ocorre em aproximadamente 10% dos tratamentos com a
técnica fiv) ou de fertilizarem menos óvulos
que o previsto (ocorre em pelo menos 30% dos tratamentos
com a técnica fiv), também optamos pela icsi.
Outra indicação é para casos de ejaculação
retrógrada, comum em homens diabéticos ou
que fizeram cirurgia de próstata, com espermatozóides
obtidos da urina após ejaculação.
A icsi está indicada ainda para casos de esterilidade
sem causa aparente (ESCA), onde é comum ocorrer falha
de fertilização (nenhum óvulo ser fertilizado)
com a fiv convencional. Chama-se esterilidade sem causa
aparente por não ter sido possível detectar
a causa com os exames previamente realizados. A incapacidade
dos espermatozóides penetrarem nos óvulos
ou mesmo penetrando, não conseguirem ativá-los,
mesmo quando o espermograma é bom, representa boa
parte dos casos de ESCA.
Na técnica icsi, o processo é muito parecido
com a fertilização in vitro convencional (fiv),
mas ao invés de os óvulos serem inseminados
(colocados em contato com os espermatozóides), um
espermatozóide vivo é injetado dentro de cada
óvulo. Isso é conseguido com auxílio
de um microscópio, montado com micromanipuladores
elétricos e hidráulicos, que comandam agulhas
microscópicas de vidro (micropipetas), contornando
assim a baixa taxa de fertilização ou mesmo
ausência de fertilização, que geralmente
se observa na fiv quando o espermograma não é
bom. Daí em diante, a fiv e a icsi são idênticas.
A icsi, que a princípio
parecia ser a solução para os piores casos
de fator masculino, se tornou a técnica mais utilizada
em todo o mundo. Hoje é realizada em pelo menos 2/3
de todos os tratamentos. Aqui no Rio de Janeiro, o Dr. Antonio
Eugenio Magarinos Torres foi o pioneiro nessa técnica,
obtendo em 29 de Junho de 1996 a primeira gestação,
que resultou no nascimento de duas meninas saudáveis.