Até
o final da década de 70, os tratamentos eram realizados
em ciclos naturais (sem estimulação dos ovários
com hormônios), pois que não existiam ainda
os medicamentos, que hoje são empregados em quase
todos os tratamentos de reprodução assistida.
A princípio, para uma mulher que ovula regularmente
e ainda está começando a se informar sobre
os tratamentos com técnicas de reprodução
assistida, parece ilógico ter de utilizar hormônios
para estimular os ovários. No início tais
hormônios eram utilizados apenas em mulheres que não
ovulavam espontaneamente, mas as taxas de êxito (bebê)
se mostraram tão superiores as obtidas nos ciclos
naturais (no mínimo 3 vezes maiores), que a estimulação
ovariana passou a ocupar um importante papel em todos tratamentos.
O maior receio
das mulheres que vão ser submetidas à estimulação
ovariana, é que com isso entrariam mais cedo na menopausa,
por estarem produzindo muitos óvulos num único
ciclo. Com relação à fertilidade futura,
não há nenhuma perda.
Aos 4 ou 5 meses de vida intra-uterina,
a mulher tem aproximadamente 2 a 4 milhões de óvulos.
Ao nascer, já perdeu aproximadamente 2/3 disso, tendo
ao redor de 800.000 óvulos. Quando entra na adolescência
e ovula pela primeira vez, esse número já
caiu para algo em torno de 40.000 óvulos. Por mais
longa que seja a vida reprodutiva, da adolescência
até a menopausa, a mulher terá no máximo
500 ovulações. O que aconteceu com todos os
outros óvulos?
O ovário poderia ser
comparado a uma cebola, com centenas de camadas concêntricas.
Cada camada contém dezenas a centenas de óvulos,
sendo que as camadas mais externas, por terem maior superfície,
contêm muito mais óvulos que as camadas mais
internas. Na medida que vamos arrancando as camadas externas
de uma cebola ela vai ficando menor, não é
mesmo?
Cada camada representa um
ciclo menstrual ou uma ovulação. Antes mesmo
da chegada da menstruação, com a queda dos
níveis dos hormônios Estradiol e Progesterona,
os níveis do hormônio folículo estimulante
(FSH), que estimula o crescimento de folículos, se
eleva e em consequência disso, todos os folículos
da camada mais externa dos ovários começam
a crescer. Na medida em que vão crescendo, esses
folículos começam a produzir o hormônio
Estradiol. Quanto maior o folículo, mais Estradiol
ele produz e mais sensível ele se torna ao FSH. O
Estradiol por sua vez, atua em receptores localizados no
hipotálamo, uma região localizada na base
do cérebro, que entre outras funções,
regula o funcionamento da hipófise. A hipófise
é a glândula mais importante em nosso corpo,
também conhecida como glândula mestra, pois
regula o funcionamento das demais glândulas.
Quando os níveis do
Estradiol e da Progesterona caem, antes da chegada da menstruação,
o hipotálamo libera o GnRH, hormônio que estimula
a hipófise a produzir e liberar hormônios (FSH
e LH) que estimulam as gônadas (testículos
no homem e ovários na mulher). Quando o Estradiol
começa a subir, age no hipotálamo inibindo
a liberação do FSH. Assim, os folículos
maiores, que são mais sensíveis ao FSH, continuam
crescendo, enquanto que os menores involuem. Mais uns poucos
dias só o folículo maior, conhecido por folículo
dominante, continua crescendo. Esse processo de involução
que acontece aos folículos menores é conhecido
por atresia folicular. Uma vez iniciada a atresia, não
há mais retorno e todos esses folículos com
seus óvulos estarão perdidos para sempre.
Quando fazemos estimulação
dos ovários, estamos utilizando FSH ou algum hormônio
que estimule a produção do FSH. Com isso,
apesar do Estradiol estar crescendo, os níveis do
FSH não caem e muitos folículos que involuiriam
continuam se desenvolvendo. Assim, ao invés de termos
apenas um óvulo maduro pronto para ovular, teremos
vários. Esses óvulos excedentes, se não
tivessem amadurecido completamente, seriam perdidos e portanto,
quando fazemos a estimulação dos ovários,
estamos apenas salvando uma boa parte dos óvulos
que seriam perdidos.
Outra noção
importante é que, por mais forte que seja essa estimulação,
só conseguimos estimular o crescimento dos folículos
que estão na camada mais externa dos ovários
e portanto teremos no máximo o crescimento e amadurecimento
de todos os folículos e óvulos dessa camada.
A camada imediatamente abaixo, que estaria destinada ao
próximo ciclo (próxima ovulação),
encontra-se num estado comparável ao da hibernação
dos ursos polares, tendo uma circulação sanguínea
mínima, suficiente apenas para que o tecido não
sofra necrose. Por falta de circulação sanguínea
suficiente ela não se desenvolve, apesar dos elevados
níveis de FSH. Com a involução de todos
os folículos da camada mais externa, o ovário
começa a produzir fatores vasculotrópicos,
que estimulam o desenvolvimento dos vasos sanguíneos
na camada imediatamente abaixo, permitindo então
que seus folículos possam ser estimulados pelo FSH
no próximo ciclo.
CONLUSÃO: Apesar de
produzir muitos óvulos maduros nos ciclos estimulados,
isso não representa absolutamente nenhuma perda.
A estimulação
ovariana, se por um lado aumenta muito as chances de êxito,
também representa o principal risco nos tratamentos.
A dose e o tipo de hormônio a ser utilizado em cada
paciente, devem ser cuidadosamente estudados. Nesse estudo
são considerados alguns dados clínicos, tais
como idade, altura, peso, características do ciclo
menstrual, idade que a mãe da paciente entrou na
menopausa (se for possível saber), resultados obtidos
em tratamentos anteriores e principalmente uma minuciosa
investigação da reserva ovariana, através
de exames de sangue. Cada profissional tem seu jeito de
fazer a investigação. Aqui na clínica,
solicitamos esses exames de forma pouco convencional, pois
há muito buscamos a forma mais precisa de conhecer
a reserva ovariana.
Dentre os riscos da estimulação ovariana,
o mais temido é a Síndrome de Hiperestimulação
Ovariana (OHSS ou SHO), que nos casos mais severos pode
levar ao óbito. Para se ter uma idéia de sua
importância, só nos Estados Unidos, morrem
anualmente 20 mulheres em consequência da OHSS. Essas
20 mortes anuais representam apenas 0,5% das mulheres que
desenvolvem a OHSS. Isso significa que, só nos Estados
Unidos, 4.000 mulheres (20/0,5%) por ano desenvolvem a OHSS.
A morte, na maioria dos casos, como agravante do grande
acúmulo de líquido no compartimento extracelular,
causada pelo desequilíbrio hidroeletrolítico
e insuficiência renal, é consequência
de derrame pleural ou derrame pericárdico, com parada
cardio-respiratória. A síndrome é bastante
desconfortável, pois a mulher fica com os ovários
muito inchados, com acúmulo de grande quantidade
de líquido no abdome, podendo causar dificuldade
até para respirar.
Um crescimento moderado dos ovários e mesmo algum
aumento transitório de volume pélvico-abdominal
é considerado normal e mesmo desejável, pois
significa que os ovários responderam à estimulação,
produzindo vários óvulos, não sendo
motivo para preocupação. Quando o tratamento
não resulta em gravidez, os ovários voltam
ao tamanho original com a chegada da menstruação,
ficando portanto aumentados por no máximo 3 semanas.
Ocorrendo gravidez, os ovários que começavam
a diminuir, tornam a crescer e permanecem volumosos por
aproximadamente mais um mês, quando novamente começam
a diminuir. Quando o volume dos ovários fica um pouco
maior que o esperado, é importante ter paciência
e confiança na experiência do médico
que realizou o tratamento. Pessoas sem experiência
em estimulação ovariana, mesmo sendo médicos,
podem apavorar as pacientes, influenciados pelo que estudaram
em livros. O profissional experiente sabe fazer a diferença
entre a OHSS leve, moderada e grave e indicar a internação
hospitalar quando necessária.
Outro risco importante é a gravidez múltipla,
mais comum nos tratamentos de estimulação
ovariana apenas, onde o casal tem relações
em casa ou associada a inseminação artificial
ou intra-uterina. Abordamos melhor o assunto no link TRANSFERÊNCIA
DE EMBRIÕES.
O esquema de estimulação ovariana ideal não
existe e talvez nunca venha a existir. Todos eles têm
vantagens e desvantagens. Aqui na clínica estamos
sempre tentando descobrir qual é o esquema que oferece
mais vantagens (segurança, resultados, conforto e
custos) para cada paciente.
O custo com medicamentos representa boa parte do custo num
tratamento. Ao pesquisar os custos de um tratamento, deve-se
atentar para o custo com medicamentos. Existem produtos
similares, mas com preços bem diferentes. Isso muda
o tempo todo, pois que com frequência aparecem promoções.
Não vendemos medicamentos aqui na clínica,
mas estamos sempre pesquisando, para descobrir onde nossos
pacientes podem comprar com melhores preços e condições.
Também não temos interesse em ganhar com venda
de remédios (direta ou indiretamente), pois já
ganhamos no tratamento em sí.
Tentamos sempre descobrir qual a menor dose capaz de produzir
bons resultados. Engana-se quem acredita que produzir dezenas
de óvulos aumenta as chances de êxito. Produzir
em torno de 10 óvulos proporciona um tratamento mais
seguro, mais confortável, mais barato e com melhores
chances de êxito (bebê).
O endométrio (mucosa que reveste o útero por
dentro) se prepara para receber o embrião. Essa preparação
é sincronizada com o amadurecimento do óvulo,
fertilização e desenvolvimento do embrião.
Aproximadamente 6 a 7 dias após a ovulação,
o endométrio está ótimo para o embrião
se implantar (se fixar, nidar). Esse momento, que dura aproximadamente
24 horas apenas, é conhecido por "janela de
implantação", numa linguagem metafórica
que compara o tempo de um dia, representado por uma pequena
janela, num muro que representa o tempo de um ciclo (aproximadamente
um mês). Se a janela de implantação
acontecer um dia antes ou depois do embrião estar
preparado para implantar-se, não ocorrerá
gravidez. O endométrio é preparado pelo efeito
de hormônios, principalmente Estradiol e Progesterona.
Esses hormônios são produzidos nos folículos
(estruturas císticas que contêm um óvulo
cada). Quando a paciente produz muitos óvulos e portanto
muitos folículos, os níveis do Estradiol e
da Progesterona muito elevados, fazem com que o endométrio
amadureça de forma acelerada, não sincronizada
com o desenvolvimento dos embriões. Assim a janela
de implantação acontece antes que os embriões
estejam aptos para implantarem-se no endométrio.
Nesse caso, mesmo transferindo 30 embriões para o
útero, as chances de êxito são mínimas.